verbete:
no discurso amoroso, é aconselhável a descoberta gradual. os segredos e a consciência de não saber se fazem necessários. e degustamos juntos nossos sorvetes de sabores favoritos e cada novidade sobre o outro. cativando aos pouquinhos. são como quizes de internet: vamos apertando “próximo” para saber onde estamos nos metendo, mas já imaginando qual será o resultado.
mas quando te conheço melhor. metamorfoseamos e criamos nossos próprios segredos. uma língua estrangeira para o mundo inteiro, mas que para a gente faz todo o sentido. olhares, sorrisos de canto, apertos de dedos entrelaçados e palavras que contém significados embaralhados. e qualquer lugar é destino definido. nossos segredos são laços de cumplicidade.
ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine
verbete da próxima semana: te dou meus sonhos.
verbete:
é fisiológico.
quando o sujeito aproxima-se do objeto amado, estímulos são modificados desencadeando corridas taquicardíacas. essa é causa a alteração da percepção de tempo quando estou com você.
no discurso amoroso, a valsa dos ponteiros dos relógios marca compasso com as batidas do coração. o ritmo recusa a cronologia linear, fragmenta a dimensão psicológica e quando vejo hoje já é ontem e precisamos ir embora.
ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine
verbete da próxima semana: segredo.
verbete:
cartas de amor são uma mídia obsoleta.
talvez conheça poucas pessoas. ou talvez as pessoas que eu conheça não sejam tão amorosas assim. mas não conheço quem, hoje em dia, ainda escreva cartas de amor. a querência pelo instantâneo e a efemeridade dos proto-relacionamentos substituiram as correspondências que demoram a chegar e precisam de interlocutores vestidos de amarelo e bolsa tira-colo. as cartas de amor não são fragmentos de um discurso amoroso dos nossos tempos.
carregam uma carga diferente dos e-mails apressados com erros de digitação ou dos sms’s com abreviaturas bizarras. cartas são pílulas de amor táteis, é sentimento guardável. escrever exige tempo dedicado, rascunhos e aquele último suspiro indagando: “será que eu mando?”.
confessamos coisas que não temos coragem de falar ou que se faladas talvez pareçam diabéticas demais. e mesmo se forem melosas e piegas, não vemos a reação do destinatário. é proteção. por isso nas cartas nos entregamos doses extras de sinceridade. escrever cartas a mão é dar caligrafia própria ao sentimento.
correspondentes. as cartas de amor são sentimentos portáteis.
ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine
verbete da próxima semana: parem os relógios.
verbete:
não me ajeito com livros de tragédia nem filmes sangrentos. essas tempestades já se fazem presentes em gc’s de telejornais e manchetes da banca. gosto de ler e escrever sobre amenidades. gosto também de cheiro de maresia, de vestir roupa que acabou de ser passada, de balançar na rede, de café recém-passado, dar uma estraladinha nas costas…
quando escrevo fujo para um paraíso particular. fujo para todas essas coisas. crio um mundo com as minhas cores e intensidades. são crenças em dias melhores quando a poesia cotidiana mal-me-quer. cultivo jardins de biografemas. de pormenores que passam despercebidos e escapam à perspectiva informativa, mas florescem na dimensão afetiva e imaginária.
as pessoas pensam que o que escrevo é um portifólio de mim mesmo, e talvez escrevo por um pouco disto; mesmo que eu não seja tanto assim o que escrevo, prefiro que pensem que sou do jeito que mostro o mundo.
ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine
verbete da próxima semana: cartas de amor.
verbete:
a primeira vez que lembro tê-la visto já era amanhã. estava vendo o sol nascer na praia. estava em florianópolis. com meus amigos. e ela era amiga de uma amiga. não lembro de onde veio, eu estava levemente embriagado, mas gosto de pensar que foi do mar. marina é a que vem do mar.
nos encontravámos ocasionalmente em alguns shows e aniversários e bares. achei alguma poesia entre seus risos que soavam como sambinhas e suas constelações de pintinhas. daí surgiu a ideia do fragmentos.
é minha parceira no crime. toda quinta-feira conspiramos contra um mundo fora de contexto. onde falar sobre amor é piegas. marina tem os sentimentos no coração e nas pontas dos dedos. ilustra para o mundo as sensações que existem em todos e sempre passeiam por aí, mas que geralmente passam despercebidos.
o mar me trouxe óculos para enxergar as belas ilustrações que escrevo.
e sinto.
ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine
verbete da próxima semana: tiago.
verbete:
não temos pressa. não procuramos simetria nas nossas vidas tortas. estamos de folga dos suspiros ofegantes. das cartas desesperadas. e dos telefonemas a meia-noite. não esperamos respostas para os sms’s sem perguntas. não falamos alto. não pedimos atenção. não trocamos flores, elogios e bem-me-queres. degustamos o tempo em seus compassos. não pulamos as vírgulas. os pontos. os travessões. não alimentamos grandes expectativas. nem cachorros abandonados. não planejamos o jantar. nem o final de semana. nem o nome de nossos filhos. não quero saber se teremos filhos. não esperamos que venham num cortejo de borboletas amarelas. estamos casulo. metamorfoseando. não tenho lindos sonhos que desejaria estar para sempre. não me lembro ao certo quando te conheci. nem se eu queria conhecer alguém naquele tempo. mas isso não importa nesse momento.
sem correr. só preciso de alguns abraços queridos, a companhia suave, bate-papos que me façam sorrir, algum nível de embriaguez e a sincronicidade: eu e você não acontecemos por uma relação causal, mas por uma relação de significado. que ainda estamos trabalhando.
ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine
verbete da próxima semana: marina.
verbete:
composição:
de origem latina, derivada do verbo expectáre, significa esperar, desejar, ter esperança. filha da imaginação, expectativa é uma forma de sobreviver ao cotidiano criando realidades ideais de futuro. são da natureza de cronópios, incontroláveis que vivem da poética dos detalhes.
posologia e modo de usar:
a expectativa oriunda de processos amorosos deve ser utilizada apenas em último caso. após a execução de todos os procedimentos possíveis e a única coisa que se pode fazer é não poder fazer nada.
recomendações profiláticas:
a expectativa deve ser administrada com cautela. sentimentos desatinados e desajustadas doses podem causar tombos de nuvens ou de prédios com mais de 3 andares. é loteria: por vezes esperar, prever, desejar pode causar frustrações e desencantos. mas quem consegue raciocinar com borboletas no estômago?
ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine
sugestão e colaboração do verbete: cris casagrande
verbete da próxima semana: sem correr.
verbete:
nas histórias de amor é sempre querível, porém nem sempre possível, estar feliz todo o tempo. às vezes brigamos por coisas bobas e sem motivo. às vezes o xampu cai no olho e faz chorar. às vezes enfrentamos tempestades e a chuva escorre nossas vontades pelo meio fio. quando estamos bem no meio do caminho e sem desculpas convincentes, sem analgésicos nem guarda-chuvas.
para ver você feliz, escrevo dias ensolarados. espalho aquarela para pintar o céu com cores favoritas. troco luneta. faço caleidoscópio para observar estrelas e inventar constelações de meio-dia. para ver você feliz penso em planos mirabolantes para camuflar pequenas surpresas nas inevitáveis rotinas.
para ver você feliz, te distraio com realidades fantásticas enquanto os furacões da vida normal passam. é só isso que posso fazer. tempo ruim é meteorológico e se você conseguir enxergar esperança, até a chuva tem sua sombra feita de arco íris.
ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine
verbete da próxima semana: expectativas.
verbete:
dizem os antropólogos e estudiosos da filematologia que os efeitos anestésicos do beijo têm suas origens nos hormônios. no discurso amoroso há uma outra teoria.
o beijo quase nunca é apenas um beijo. é passaporte. lábios e calores, centímetro a centímetro, aproximam-se formando encaixes perfeitos. cria universo. e nesse instante-lugar, o mundo se desfaz. o fundo se desfoca, tudo são luzes e sons ininteligíveis. é um lugar muito acima do nível do mar, onde o ar é rarefeito. a sensação de dormência, que começa na boca e bate no peito e corre por todo o corpo entorpecendo os sentidos, ocorre devido a mudança de altitude. a pressão atmosférica em universos paralelos faz com pensemos que temos o mundo inteiro dentro do peito e os sorrisos mais largos.
quando os lábios se distanciam, a realidade se refaz e os ponteiros dos relógios continuam a girar.
com um sorriso a mais.
ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine
verbete da próxima semana: para ver você feliz.
verbete:
no discurso romântico são feitos vilões. mas, na realidade, são anti-heróis.
bons corações que se perderam pelo cotidiano e chegaram depois. maldito seja esse músculo que não se norteia por bússolas ou se guia por satélites! e acabamos nos apaixonando por corações já conquistados (não encontro explicações por que amamos e queremos ser amados por um determinado ser e excluimos todo o resto da humanidade) e tornamo-nos a outra pessoa.
grandes doses de manutenção da integridade do eu se fazem necessárias. é o oposto daquilo que se diz politicamente correto. no discurso amoroso, os sentimentos nem sempre procuram situações formatadas e explorar territórios colonizados sempre resultam em algumas baixas, cicatrizes de batalhas e corações feridos de alguma parte.
cautela é recomendada. mas, é fundamental viver o que se ama.
ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine
verbete da próxima semana: beijo.
fragmentos dos leitores