fragmentos

verbete:

músicas

no discurso amoroso, é como aquele jazz:

não segue as notas. é feito de encontros ao acaso. de espontaneidades dissonantes. de apertos de mãos. todo assim, meio desejeitadinho e corrido. as claves e semínimas anotadas em guardanapos parecem cair da mesa. mas com o tempo e algumas afinidades, não é preciso mais ler partituras. porque a gente não consegue esquecer. aí, as notas dançam entrando no compasso e o mundo parece um lugar mais confortável para se estar.

ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine

verbete da próxima semana: outra pessoa.

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verbete:

palavras ocultas

palavras ocultas

palavras ocultas

muitos desejos não se consumam e continuam etéreos por causa das palavras covardes. aquelas que não deixam apertar o botão “enviar” depois de escrever alguns parágrafos sinceros ou que ficam falando de longe e bem baixinho dentro cabeça para não te ligar de madrugada quando estava pensando em você e tudo fazia sentido. ficam ocultas por anseios e medos. por idiossincrasias e insegurança na falta da reciprocidade.

e não tomo coragem, mas invento analogias em planetas fantásticos para tentar fazer você sentir o que estou sentindo. escrevo para o mundo, mas, na verdade, essas palavras têm direção e destino.

porque ao final, todas as conversações, todas as palavras, todos os fragmentos – no discurso amoroso – consistem em dizer ao ser amado:

“estou aqui, perceba-me.”

ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine

verbete da próxima semana: músicas.

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verbete:

conquista

conquista

conquista

a conquista é um jogo inconsciente. é aprender lidar com expectativas e falta de ar. é a tomada do castelos de copas, que se constrói com cartas, carinho e cuidado e o menor sopro pode desmoroná-lo.

às vezes, usa sinais confusos de se ler. pega no pé para chamar atenção, mas procura estar sempre por perto, escreve bilhetes com a caligrafia insegura e cheia de esperanças para te entregar. e vai a shows, aulas, bares e eventos que não fazem o menor sentido, só para passar mais tempo ao seu lado. e inventa poemas e cria músicas e vira artista para pintar o céu nas suas cores favoritas.

a força que impulsiona a conquista é a que faz com que elaboremos engenharias e planos mirabolantes para mover o mundo. para fazê-lo girar. para você.

ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine

verbete da próxima semana: palavras ocultas.

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verbete:

assincronia

assincronia

assincronia

querido,

gostaria que o coração compreendesse razões ou assistisse comédias românticas até o final. aí sim, talvez, eu conseguisse um pouco de paz e complitude nesse momento que sobra alguma falta.

você vive a poesia dos dias, expira vontade de ser mais e penso que num outro momento seria a pessoa ideal para se estar. mas acredito que para viver uma relação, ambos precisam estar numa sintonia perfeita, no mesmo tempo, e  não estamos.

estamos em assincronia. agora nossos mundos fazem translação em velocidades diferentes. mas nossas atmosferas são semelhantes e nossos sonhos são engenhosos. não tenho astrolábio para prever o futuro, mas talvez um dia, lá na frente, nossos planetas possam se encontrar e formar eclipses fascinantes.

mas, por enquanto, deixe-me rodar sozinha. para encontrar meu mundo. para me entender.

beijos da sua amiga,
xxx xxxxx

ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine

verbete da próxima semana: conquista.

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verbete:

rotina

rotina

rotina

é aquela sensação de estar vivendo no piloto automático, maquinal. são os xis marcados no calendário. e que no dia a dia nem se percebe, mas quando a gente vê: vira a folha. rotina é o relacionamento em motion blur.

não é necessariamente uma coisa ruim. é o chão para quando se voa mais alto que o céu e é preciso fazer pousos de emergência na vida regular. e ganhar fôlego. rotina é o cheiro do tempero do feijão dos jantares que saem pela janela das casas e escapolem para a rua quando estou voltando. é saber que mesmo sob todas as tormentas haverá alguém esperando com uma caneca de chá e abraços confortáveis.

lidar com a rotina é se permitir enxergar as pequenas revoluções cotidianas. trocar o lado de dormir na cama. procurar por caminhos alternativos. rotas de carro para o trabalho e de sorrisos para o dia a dia. e buscar alegrias nos detalhes.

ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine

verbete da próxima semana: assincronia.

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verbete:

distância

distância

distância

tão perto, mas tão distante.

diferentemente da geometria, a distância – no discurso amoroso – não faz relação somente com espaço físico. o intervalo entre dois corações é feito também do cansaço das rotinas, dos músculos doloridos e da falta de tempo para possibilidades.

os meios de comunicação têm braços compridos e encurtam a lonjura quando recebo seu email me confortando em um dia furioso.  mas essa distância física parece uma eternidade e um lugar pouco confortável para se estabelecer um lar.

estamos no começo do outono, a temperatura fica mais amena e tento ser constante. mesmo atravessando estados longínquos, eu jogo migalhas pelo caminho e ligo a noite te desejando “bons sonhos”  para lembrar para onde eu preciso voltar.

no telegrama te escrevi um haicai. sobre a falta que você me faz.

ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine

verbete da próxima semana: rotina.

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verbete:

sorrisos

sorrisos

sorrisos

no momento em que sorrimos para alguém, descobrimo-lo como pessoa, e a resposta do seu sorriso quer dizer que nós também somos pessoa para ele”.
antoine de saint-exupéry

entre todos o jeitos de comunicarmos aprovação, o sorriso é o sinal que tem a maior carga de ternura. por isso é tão confortável sua presença e a lembrança machuca pela falta.

ensaiar um sorriso é abrir a porta e convidar para entrar. permitir aproximação. deixar se envolver. sorrir com cumplicidade é o primeiro flerte quando ainda não são preciso palavras para dizer o que se deseja.

a melhor parte. é a sincronia dos cliques dos fotógrafos. conforto para o sofrimento. viraliza pelo contágio. alguns têm cheiro de lembranças inesperadas e os músculos contraem meio assim sem querer. outros são carregados nas trocas de olhares entre pessoas queridas. com alegria em beijos-de-oi e com uma saudadezinha em beijos-de-tchau.

carregar um sorriso nos lábios é a vontade de dias suaves, reciprocidades e toalhas fofas e secas.

ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine

verbete da próxima semana: distância.

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coração dormente

coração dormente

debaixo da tênue linha que divide o amor do ódio, existe um país neutro onde moram os corações dormentes. é um lugar onde não há ressentimentos, nem andamos em montanhas russas. o coração cumpre sua responsabilidade física, mas se ausenta no sentir.

como todos os músculos, ele também fadiga quando usamos demais. cansado de dissabores, renasce num coração dormente. nesse estado o coração não dói. é um navio à deriva. amigo da calmaria, irmão do tempo.

mas dizem que é um desperdício de forças e de coração tentar obrigá-lo a adormecer. dizer que o tempo o amolecerá. o coração é um músculo involuntário, ele bate mesmo sem você querer.

mas faço mil versinhos, para despertar de supetão seu coração dormente.

ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine

verbete da próxima semana: sorrisos.

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borboletas no estômago

borboletas no estômago

são insetos da ordem lepidóptera. possuem dois pares de asas membranosas que habitam e rodopiam histericamente no sistema digestório das pessoas apaixonadas.

esses rebuliços geralmente acontecem quando são encontradas pessoas que sempre imaginávamos nas músicas e poemas de amor que ouvimos a vida inteira, mas nunca tinham rosto, nome ou aquele perfume que quando passam pela gente, só faz suspirar.

borboletas no estômago é um sentimento relacionado ao amor e a ansiedade. esse panapaná sobrevoa nosso estômago em períodos estratégicos. nos 15 minutos antes de chegar ao ponto de encontro. enquanto o telefone toca e espero você atender. se seguro ou não sua mão no meio do filme. mas me conforto quando você me sorri, me aprova. e as borboletas parecem explodir pelo peito e saem voando preenchendo o mundo.

as borboletas são importantes polinizadores de diversas espécies de plantas e amores. mas por enquanto, prefiro que voem por outros jardins.

ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine

verbete da próxima semana: coração dormente.

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amores múltiplos

amores múltiplos

seria leviano, mas muito mais fácil, dizer que enquanto estamos amando, automaticamente são fechadas todas as portas e novas possibilidades para adrentarem e tomarem de assalto nosso coração.

é certo que o amor ocupa espaço físico e tempo dedicado, mas o coração mora em suas infinitudes. e nas simultaneidades anacrônicas. fincando bandeiras  estampadas com relações lindas, num país distante onde não se disfarçam sinceros modos.

amor múltiplo é a brincadeira de despetalar flores só com bem-me-queres. todas bem-queridas. isentas de culpa. não é tentar seguir a razão ou a lógica. amar, no plural ou no singular, é ser fiel ao próprio coração.

ilustração: marina faria
texto: tiago yonamine

verbete da próxima semana: borboletas no estômago.

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fragmentos

toda quinta-feira uma ilustração e um texto com interpretações pessoais sobre os fragmentos de um discurso amoroso. de roland barthes. por marina faria e tiago yonamine

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